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Entrevista com Maria Fernanda, Médica Veterinária do Parque

12/07/2017

Maria Fernanda Naegeli Gondim nasceu em São Paulo capital e foi criada em Petrópolis – região serrana do Rio de Janeiro -, onde desde pequena nutriu a paixão pela natureza, e particularmente um grande interesse pelos animais, tendo desde bem cedo a convicção de que um dia tornar-se-ia médica veterinária. Formou-se em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa, MG, com especialização em Clínica Médica e Cirúrgica de Animais Selvagens e Exóticos e Mestrado em Ciência Animal, durante o qual desenvolveu sua pesquisa “Aspectos de saúde de Tapirus terrestris cativos das regiões sul e sudeste brasileiras, da região  do Alto Paraná, no Paraguai e de duas Unidades de Conservação do norte do Espírito Santo, no Brasil” e participou do Pró-Tapir - Programa de monitoramento e conservação das antas na Mata Atlântica Capixaba.

 

 

Começou a trabalhar no Parque Fioravante Galvani em agosto de 2015 como médica veterinária e responsável técnica pelo criadouro.
 

- Qual a sua motivação para aceitar o trabalho no parque?

Em 2015, ao chegar à região de Luís Eduardo Magalhães e Barreiras para uma entrevista, fui surpreendida não apenas pela capacidade produtiva da região tipicamente agrícola - com pivôs centrais e plantações para todos os lados - mas ainda mais pelo fato de chegar ao Parque e encontrar uma área muito bem preservada do Cerrado, um dos biomas mais ameaçados do planeta. Percebi que a vegetação típica é mantida por todo o parque, fazendo parte inclusive da ambientação dos recintos. Encontrei também muito bem mantidas as espécies animais característicos do bioma, algumas inclusive ameaçadas de extinção. Como eu já havia tido uma experiência prévia em um projeto de conservação de antas em outro estado, desde este primeiro contato pude compreender a importância do Parque e de todos os projetos já realizados, bem como avaliar o enorme potencial ainda a ser explorado. Senti que eu teria muito a contribuir neste processo, me sentindo extremamente motivada.

 

 

- O que mudou nesse trabalho desde a sua chegada?

Desde a minha chegada, estamos rotineiramente revendo os procedimentos com o objetivo de aprimorar a segurança da equipe, a sanidade, o manejo, a nutrição e, consequentemente, o bem-estar do nosso plantel, o que refletiu positivamente na reprodução dos nossos animais. Estamos empenhados na capacitação da equipe, sobretudo na dos tratadores de animais silvestres, para que possamos conhecer cada vez mais não apenas as espécies, mas também as particularidades de cada indivíduo, com o objetivo de sempre oferecer a eles as melhores condições. Promovemos uma aproximação com outras instituições, buscando a troca de experiência, a permuta de animais, o aguçamento da nossa capacidade técnica, a participação em pesquisas, ampliando a coleta de informações e a disseminação desse conhecimento, contribuindo cada dia mais para a preservação das espécies. Acreditamos que os esforços de conservação em cativeiro, apesar de serem extremamente importantes e indispensáveis, devam ser associados aos esforços de conservação na natureza. Em função de tudo isso, passamos a olhar melhor para o nosso entorno, buscando - através de observação direta e armadilhamento fotográfico - nos inteirar sobre as demais espécies presentes aqui, sendo este o primeiro passo para finalmente ultrapassarmos as nossas cercas e complementarmos nossos esforços para conservação, atuando também na natureza.
 

- Qual o seu maior desafio nesse trabalho?

O desafio diário é buscar constantemente o meu aprimoramento e o de toda a equipe de tratadores, seja com as nossas próprias experiências aqui do Parque ou trocando experiências com outros profissionais e com outras instituições. Sou motivada pela determinação de conhecer melhor os nossos animais, seus hábitos, comportamentos e doenças que os acometem, sistematizando todas essas informações adquiridas para que possamos sempre compartilhá-las. Aprimorando nossos procedimentos, permitimos que os animais mantidos sob os nossos cuidados possam manter hábitos semelhantes ou próximos aos que desempenhariam na natureza, garantindo a qualidade de vida e consequentemente melhorando as taxas reprodutivas. O maior desafio será associar os nossos esforços em cativeiro às estratégias de conservação em ambiente selvagem em prol da preservação das espécies.

 

 

- Nesse período de trabalho qual o acontecimento que mais te surpreendeu em relação aos animais?


O nascimento do filhote dos lobos-guará Mel e Vitor foi o momento mais aguardado por todos. Criamos uma expectativa muito grande para este acontecimento. Foram várias as tentativas, antes mesmo da minha chegada e, no ano passado, conseguimos acompanhar a gestação inteira do casal. Tudo ia muito bem até que, na hora do parto, houve uma complicação (distocia) e, mesmo com todo o esforço da equipe, o filhotinho acabou nascendo sem vida. O momento foi realmente muito triste e frustrante, mas ao mesmo tempo foi de muita esperança, ao vermos que houve a aproximação do casal e a possibilidade de uma futura reprodução. Em maio de 2017, finalmente, tivemos a alegria de acompanhar uma nova gestação e o nascimento de mais um lobinho no PFG. O Vitor havia sido o primeiro filhote de lobo-guará nascido no PFG e agora a realidade de termos uma segunda geração, um filhote dele com a Mel, “a grande estrela do parque”, é maravilhosa. Essa experiência bem-sucedida nos faz querer ir além, buscar novos projetos que contribuam ainda mais para a conservação desta espécie tão emblemática e submetida às mais duras adversidades, inclusive aqui na nossa região.

 

 

- Qual o seu sonho para o futuro do parque?


Sonho com o engrandecimento do Parque para que venha a se estabelecer como uma referência nacional, e até mesmo internacional, na conservação das espécies deste bioma tão ameaçado. Acredito que possamos nos estruturar para mantermos um plantel ainda mais diversificado e em excelentes condições, servindo de base para estudos, pesquisas, disseminação de conhecimento e participação na formação de profissionais da área.  Vislumbro a possibilidade de que o PFG possa se associar a outros centros conservacionistas do país e do exterior, vindo a abrigar pesquisas sobre os animais da região e a conduzir projetos de reprodução e reintrodução de animais na natureza.  Sonho com um Parque capaz de desenvolver programas de educação ambiental cada vez mais ambiciosos junto à população, reafirmando a importância da preservação do Cerrado, sob os mais variados aspectos.  Em especial, sonho com um Parque capaz de desenvolver, junto a fazendeiros da região, programas de conservação na natureza, além de apoiá-los cada vez mais na adoção de práticas sustentáveis. Enfim, meu maior sonho é ver o Parque atuando como forte elo que liga todos nós, personagens – fauna, flora e seres humanos - ao meio em que vivemos, tornando nossas relações cada vez mais harmônicas.

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