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Entrevista: Marcelo Carpintéro, novo superintendente do Parque

31/05/2017

“Está na hora do Parque transbordar para além dos limites da sua cerca!”. A frase reflete a nova fase que o Parque Fioravante Galvani está vivendo desde a sua revisão estratégica, realizada em 2016, que indicou os caminhos que moldarão o futuro da instituição. O autor da frase é Marcelo Carpintéro, novo superintendente do Parque, que chegou com o desafio de coordenar todas as transformações previstas para os próximos anos. Formado em Ciências Econômicas na UNESP e com especialização em Gestão e Estratégias de Empresas e em Economia Solidária e Tecnologia Social pela UNICAMP, Marcelo tem uma ampla experiência em projetos que envolvem desenvolvimento comunitário, gestão de negócios sociais, entre outras áreas que vão contribuir para a sua atuação na nova fase do Parque. Na entrevista desse mês, conversamos com ele sobre o caminho que traçou até chegar nesse momento e os planos para o futuro do Parque.

 

Você pode nos contar como foi sua trajetória até chegar à superintendência do Parque?
Vou falar um pouco das principais experiências que contribuíram para construir a bagagem que, hoje, pretendo utilizar na gestão do Parque. Em 2004, na Prefeitura de São Paulo, fui contratado como consultor da FAO-ONU para desenvolver nas comunidades da periferia projetos de empreendedorismo. Nessa experiência, tive contato com um tipo de economia diferente da convencional e também com as políticas públicas, além de um início nas questões ambientais, pois também eram contempladas nos projetos.

Outra experiência importante foi, a partir de 2007, na Prefeitura de Várzea Paulista. Fui diretor da Secretaria de Assistência Social, responsável por implantar um programa de empreendedorismo solidário na cidade. Eles tinham as ações sociais, mas precisaram encaminhar as pessoas participantes dos programas sociais para um próximo passo: o mercado de trabalho ou o próprio negócio.
Uma vez implantado o programa e tudo caminhando, em 2009 eu decidi partir para saltos maiores. Nesse momento, me direcionei para projetos de desenvolvimento sustentável, na consultoria de um projeto do Ministério de Desenvolvimento Agrário, em parceria com o Sebrae, para estruturar cadeias produtivas no Norte e no Nordeste. Minha função era ir até os locais nos quais os empreendimentos precisavam ser  alavancados e ajudá-los a se desenvolver com um impacto não apenas financeiro, mas também social. Em Porto Velho, atuamos junto a uma cadeia de biojoias com base em sementes de açaí; em Picos, no Piauí, na estruturação de negócios com cooperativas produtoras de mel e de castanha de caju; em Tauá, no Ceará, com cooperativas de algodão orgânico; em Petrolina, Pernambuco, na produção de frutas; e em Valente, Bahia, com artesanato feito com sisal.
A partir de 2011, em Araguaína e Xambioá, no Tocantins, participei do Programa Redes, do Instituto Votorantim, em parceria com o BNDES. Fiz tanto o desenvolvimento institucional com ONGs e associações locais quanto a criação de projetos de empreendimentos sustentáveis. Depois, no interior de Minas Gerais, coordenei um curso de qualificação profissional. Nosso sucesso de inserção dos jovens no mercado de trabalho não foi por meio do emprego formal, mas do aprimoramento dos negócios familiares.
Outra experiência que posso destacar foi, em 2014, na AJFAC – Associação Joseense para Fomento da Arte e da Cultura, Organização Social de Cultura de São José dos Campos. Fui atuar, principalmente, na captação de recursos e na gestão de um projeto de intervenção em uma comunidade muito violenta da região. Nossa proposta foi utilizar a arte e a cultura como ferramentas de transformação.
Após sair desse projeto, segui prestando consultoria de gestão e marketing para OSCs, fazendo gestão de recursos e elaborando projetos pontuais, até que eu vi essa oportunidade no Parque Fioravante Galvani.

 

O que te chamou mais a atenção quando viu essa possibilidade no Parque?
Primeiramente, me chamou a atenção que estavam precisando de uma pessoa cuja formação e experiência acadêmica não fossem 100% relacionadas a áreas de conservação ambiental, como um biólogo ou um engenheiro florestal. Também observei que o desafio na definição da vaga já estava claro: a busca de alguém que comandasse o processo que proporcionasse um salto, uma evolução, no Parque. Um profissional que criasse meios de captação de recursos, que permitisse negócios, que incentivasse a preservação ambiental, mas que fosse “multitask”, ou seja, várias tarefas. Pois, além de fazer a gestão, seria responsável pela parte de captação de recursos, que é muito importante. Essa mistura de desafios me chamou a atenção. 
 
O que mais contou na decisão?
Eu trabalhei muito tempo com projeto pontuais e acho que, nesse momento da minha vida, precisava de algo com um comprometimento maior, de médio para longo prazo, com a chance de desenvolver algo mais para a frente. Eu sabia que, aqui, as instituições envolvidas são sólidas e iria depender muito do meu desempenho. Então, tem um horizonte de planejamento, tanto do trabalho quanto pessoal, mais longo. 

E quando teve a certeza que estava no caminho certo?
Quando foram realizadas as primeiras entrevistas e me enviaram o desafio de montar uma apresentação com um case de captação de recursos, as metas e o que é o Parque. Na hora que eu comecei a reunir o material, pensar na apresentação, investigar mais sobre o Parque, tive certeza que essa era a experiência que eu estava procurando. É aqui que conseguiria desenvolver toda essa bagagem que acumulei!
 
Muitos pontos da sua trajetória coincidem com as necessidades do recente replanejamento que foi feito para os próximos anos do Parque. Quais são os principais pontos que, agora, você vai conseguir aplicar?
Tem a questão de captação de recursos, que envolve o contato com empresas, institutos e fundações parceiras, estabelecer um diálogo, ver os pontos em comum, negociar. Tenho essa bagagem e acredito que podemos estabelecer essas conversas, sempre com o link da conservação, que é o objetivo principal do Parque. O ponto chave é a sustentabilidade, que nós podemos trabalhar de diversas maneiras na busca de recursos, não apenas de forma direta, por meio de editais, mas também criando novas propostas e parcerias. 
Outro viés interessante é potencializar as atividades que o Parque já realiza com sucesso, como a educação ambiental, o criadouro de animais e o viveiro de mudas. Ter uma visão de criar projetos com o fundamento baseado na conservação que utilizem esse background. A educação ambiental, por exemplo, pode ser expandida para consultorias para os produtores rurais, que são obrigados por lei a ter uma área de preservação. Podemos orientá-los em propostas que utilizem essas áreas de uma forma que gere recursos financeiros com uma produção sustentável, sempre seguindo todos os critérios estabelecidos pelas leis ambientais, traga benefícios como a melhora da qualidade da água e do solo e contribua para a conservação. São os chamados serviços ecossistêmicos, que vamos implantar com bastante força.

 
Ações que ampliam os contatos com a comunidade. 
Sim. E aí entra outro ponto da minha experiência profissional que trago para o Parque, de fazer o relacionamento próximo com a comunidade na qual os projetos estão inseridos e identificar os links que eles têm com a região e que podem ser utilizados. O trabalho feito aqui nesses 10 anos do Parque em educação ambiental com crianças foi importantíssimo. Muitas delas, hoje, tomam conta das propriedades familiares e desenvolveram uma consciência de preservação por conta da base que receberam nas atividades que realizaram no Parque. O que podemos fazer é ampliar as ações educacionais para o público jovem e adulto, criar cursos específicos de curta duração ou a longo prazo, para que aumente a idade de foco da educação ambiental e, dessa forma, ver os resultados da conscientização em um menor tempo. Tudo nessa linha de mostrar que é possível você conservar e preservar sem perder e, inclusive, ganhando com isso. 
Também precisamos gerar conhecimento sobre fauna e flora na região. No segundo semestre desse ano iremos iniciar um projeto de mapeamento e monitoramento da população de lobos guará e a participação das comunidades será fundamental para o sucesso da iniciativa.
 
Que outros públicos podem ser incorporados nos projetos?
Podemos formular projetos de parcerias com as universidades locais e convênios de cooperação técnica. Temos um campo de estudo imenso no Parque e muito material que a equipe do Parque já coleta, como o comportamento dos animais e o período de crescimento das plantas. Porém, não temos braços para transformar esses dados em projetos de pesquisa e, depois, em informações para empresas ou para o requerimento de patentes, por exemplo. As universidades podem nos ajudar nessa questão. Estamos abrindo esse campo, formalizando e fazendo negociações com faculdades federais e estaduais da região para ter parceiros na produção e divulgação de conhecimento. 
 
Os projetos futuros também preveem maior divulgação na comunidade?
Por conta da restrição do número de visitantes a um criadouro conservacionista, a gente não pode abrir as portas e convidar a comunidade inteira para vir ao Parque. Então, naturalmente, muitas vezes as pessoas não sabem exatamente tudo o que é feito aqui dentro. Por isso, vamos usar muito o meio digital e divulgar através da internet. Vamos elaborar um portal extremamente moderno para mostrar todos os aspectos do Parque e o conhecimento que produzimos. 
A comunidade também pode ser incorporada de outras formas. Por exemplo, A região de Luís Eduardo Magalhães é uma principal produtora de algodão do país. Nós podemos estabelecer parcerias na comunidade e fomentar a criação de uma cooperativa têxtil que transforme o algodão em tecido para depois serem produzidas camisetas, bonés e itens de artesanato local em parceria com o Parque, gerando recursos para todas as pontas.
Além disso, estamos participando de atividades como o projeto de reconstrução de uma praça na comunidade do Bairro dos Ipês e podemos, no futuro, realizar mais atividades em outras praças da cidade, criar espaços como áreas de lazer para a população e implantar o projeto de uma exposição itinerante do acervo do Parque para levá-la a quem não tem a oportunidade de nos visitar. Está na hora do Parque transbordar para além dos limites da sua cerca!

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